quinta-feira, 31 de julho de 2014

Solstício - Capítulo 17



Capítulo 17 – Um falso incêndio



Nick



 


                Sinto meu celular vibrar. Era uma mensagem de Aurora. “JENNA É PHILIP. ESTOU COM ELA AQUI.”
                Minha irmã estava tão perto de mim e não falou comigo, por quê? Meu corpo todo estremece e levo um tempo até voltar para mim. Tenho que ligar para Aurora, preciso saber onde elas estão.
                - Hey, – Aurora atendeu. – sua irmã está aqui.
                - Oi irmãozinho. – Ela fala. – As pessoas te chamam de Nick agora? Eu preferia Rey, mas quem sou eu para julgar.
                - Jenna onde vocês estão? – Falo. – Se você fizer alguma coisa com a Aurora eu juro que te mato.
                – Calma, eu e sua namorada vamos dar um passeio. – Ela diz levando tudo na brincadeira.
                - Estou falando sério. – Falo.
                – Até mais. – Ela me interrompe e desliga o celular na minha cara.
                E agora que devo fazer? Para onde as duas foram? Eu amo minha irmã, mas tenho medo que ela possa fazer algo contra Aurora, eu não posso deixá-la fazer isso... Eu não aguentaria.
                Tenho que tomar mais alguma atitude, não posso ficar parado aqui. Mando uma mensagem para Erika avisando que Aurora está com a Jenna e que ela me encontre no estacionamento. Parece que esse ano eu não vou ganhar nenhum prêmio por presença nas aulas.
                Corro em direção à saída e percebo que se eu tivesse saído um pouco antes talvez eu impedisse que Jenna levasse Aurora. Vejo as duas em um carro saindo do estacionamento. Jenna está com sua aparência normal. A aparência que eu me lembro sempre, a única que me faz lembrar que eu ainda tenho uma irmã que era carinhosa comigo.
                Meu carro está muito longe, e eu me sinto completamente imóvel, o temor que me sinto só de pensar que talvez eu nunca mais veja as duas é maior. Fico paralisado no meio do estacionamento até que sinto uma mão em meu ombro. Era Erika.
                - Onde elas estão? – Ela pergunta.
                - Jenna levou Aurora. – Falo. – Cheguei muito tarde.
                Sinto-me horrível por dentro, mas por quê? Eu não sabia sobre isso, eu não poderia prever, eu não sei por que me sinto assim.
                Meu cérebro parece ter sofrido uma lavagem e tudo está misturado, coisas estão faltando. Minha respiração está acelerada. Minha pulsação está sem ritmo. É aí que eu percebo. É só nesse momento de perda que eu percebo, estou apaixonado. Estou apaixonado por uma garota. Eu amo Aurora Collins.
                - Você está bem? – Erika me pergunta. E é quando percebo que não posso viver no meu mundo, tenho que salvar Aurora.
***
                Estamos no carro há aproximadamente duas horas, procuramos por Jenna e Aurora por todos os lugares onde eu pude lembrar, menos um, a casa de Aurora, e é para lá onde estamos indo.
                Erika, assim como eu, está perdida em seus pensamentos. Ambos só falamos algo quando nos lembramos de algum lugar para procurar. O que será que Erika está pensando?
                Tento ligar para o telefone de Aurora de novo, ele está desligado. Posso sentir uma lágrima se formando no meu olho, mas pisco para não deixar que a lágrima escorra por meu rosto.
                Chegamos à casa de Aurora, eu nunca havia entrado lá, desde que Aurora saiu de sua casa para morar com Erika, ela só foi à sua casa uma única vez, foi na vez em que ela foi supostamente atacada por minha irmã.
                Há uns dez dias Aurora me contou o que havia acontecido com eles dentro da casa dela, ela me falou sobre o incêndio, sobre a carta e sobre Ezra, aparentemente o mesmo Ezra em que eu e minha irmã confiávamos que agora se tornou um ínvido.
                Desço do carro e vou em direção a porta da frente, a porta não está trancada então eu entro. Pela descrição que Aurora me deu eu pensei que a sala inteira estaria torrada e não tinha sobrado nada, porém quando entro na sala, tudo que vejo são alguns móveis de alguém que tem um gosto particularmente esquisito.
                - Erika, - Grito, ela ainda não entrou na casa. – Vocês não disseram que a sala tinha pegado fogo?
                - Disse. – Ela grita de volta e depois entra na casa. – Puta m... O que aconteceu com o lugar? Eu posso jurar que a sala estava queimada, eu vi com meus próprios olhos.
                - Acho que não foi minha irmã quem invadiu o lugar. – Digo. – Os ínvidos estiveram aqui, tudo não passou de um jogo mental deles.
                Por um instante uma ponta de esperança apareceu em mim, minha irmã não tinha feito nenhum mau para eles naquele dia. Mas então minha ficha caiu, há quanto tempo e com que frequencia, os ínvidos brincam com nossas cabeças?
                Sinto-me completamente inútil, eu sei como acabar com eles, mas não consigo sem minha irmã, por um momento meus pensamentos tentaram buscar alguma alternativa, alguma coisa que eu pudesse fazer, mas tudo que consegui pensar é uma coisa que não me agrada muito.
                Jenna pegou a Aurora para as duas tentarem acabar com os ínvidos sozinhas, por algum motivo Jenna não quer me envolver, sei disso porque a conheço há muito tempo. Ela sempre quis me defender, e eu sempre a odiei por isso.
                A odeio mais que nunca agora, ela não podia ter levado Aurora para longe de mim, ela não podia simplesmente ter me descartado dessa maneira, ela não poderia usar Aurora dessa maneira, e o pior ela não podia arriscar a vida da Aurora. Se acontecer algo com a Aurora, eu juro que vou me certificar que o mesmo aconteça com minha irmã.
                Pela primeira vez noto o rosto de Erika, ele se torna um pouco sombrio, o que será que ela está pensando?
                - Eu juro, que na hora que eu encontrar esse ínvidos... – Ela faz uma pausa. – Eu irei matar cada um deles. Não se brinca com a vida de ninguém, não se brinca com a cabeça de ninguém assim.
                -Vamos pocurar por alguma pista. – Falo, tento soar o mais controlado possível, mas os meus pensamentos me consomem, o que Erika disse está me consumindo. Quando eu achar algum ínvido, eu mesmo o matarei.
               
               
               



               

sábado, 12 de julho de 2014

Solstício - Capítulo 16

Capítulo 16 – Face de ninguém
Aurora
 


              Desde que Derek sumiu não consigo prestar atenção às aulas e o tempo parece passar cada vez mais devagar. Sinto-me completamente perdida e às vezes pergunto a mim mesma qual o propósito de continuar naquela cidade, afinal de contas eu só estou aqui por conta do trabalho da minha mãe, mas descobri que ela não está mais viva, então o que eu deveria estar fazendo aqui?
              Fico presa nesse pensamento até a hora em que sinto meu celular vibrar. Era Nick. “DAQUI A DEZ MINUTOS. ATRÁS DAS ARQUIBANCADAS DO CAMPO DE LACROSS.” Olho que horas são, faltam dez minutos pra a hora do almoço. Não imaginei que tinha passado tanto tempo perdida nos meus próprios pensamentos.
              O sinal toca, e todos da escola vão em direção ao refeitório. Eu sou a única que está indo na direção contrária. Estava quase chegando ao campo de lacrasse quando vejo Erika.
              - Recebeu a mensagem também? – Ela me pergunta.
              - Sim. – Sim. Respondo um pouco confusa. – O que será que ele tem para nos dizer?
              - Eu mandei uma mensagem para ele mais cedo. – Erika olhou para seu celular casualmente. – Acho que achei uma pista do paradeiro de Jenna.
              Esperamos por ele por mais alguns minutos e ele chega com alguns papeis nas mãos.
              - Pessoal, tenho algumas coisas interessantes para mostrar para vocês. – Ele senta-se no chão e espalhas os papeis em seis pilhas. – Cada pilha dessas representa um aluno ou um funcionário que entrou na escola nas últimas duas semanas.
              Sento-me de frente para Nick. E Erika faz o mesmo.
              - Tem alguma pista? – Falo. – Algo que possa indicar quem é a Jenna?
              - Tem uma coisa que nós do clã da natureza não conseguimos mudar, nem quando mudados de aparência. – Ele faz uma pausa dramática. – Nossos olhos. A cor deles não muda. Não conseguimos esconder sua cor nem mesmo se usarmos lentes.
              Em outros momentos eu me perguntaria quem seria tão desequilibrado mentalmente para querer esconder a cor dos próprios olhos, mas em uma situação como essa eu posso entender. Os bruxos do clã da natureza pode-se transformar em quem quiser, mas são entregues pela cor dos próprios olhos. Isso seria o ponto fraco de um bruxo do clã da natureza? Assim como a fraqueza de um bruxo do sol é a lua e a fraqueza de um bruxo da lua é o sol?
              E mais uma questão se forma na minha cabeça. Qual seria minha fraqueza? Qual seria meu ponto fraco? Eu desconheço. Mas será que alguém conhece minha fraqueza? Dessa forma seria muito fácil acabar comigo, afinal de contas nem eu mesma conheço minha fraqueza.
              - Então tudo que devemos fazer é descobrir se um deles tem a cor dos olhos da mesma tonalidade que os seus? – Erika fala.
              - Basicamente. – Nick responde com uma ponta de esperança surgindo do fundo da sua garganta.
              - Então cada um fica com dois deles, e certifica-se que seja ou não Jenna. – Falo.
              - Parece um bom plano. – Nick se vira para mim e sorri.
              Peguei as duas pilhas da minha esquerda e saí. Apenas quando cheguei ao meu armário eu li os nomes escritos o primeiro era o meu próprio nome. Talvez Nick tenha roubado as fichas e saído correndo antes de se certificar dos nomes. O outro nome é Philip Hale. Um garoto do terceiro ano. Na ficha tem o seu horário, suas alergias, seu tipo sanguíneo e seu endereço. Olho o seu horário e noto que temos o próximo tempo juntos. Isso me parece à chance perfeita.
              O sinal toca mais uma vez e vou direto para a aula de Química. Jenna devia estar por lá, ou talvez fosse somente um garoto chamado Philip mesmo.
              O professor entra na sala e nos separa em duplas. Na aula de hoje íamos fazer uma reação química, mas não prestei muita atenção. Eu estava procurando alguém com olhos verdes-esmeralda. Não era uma cor muito comum, então tenho certeza que se eu encontrar alguém com essa tonalidade nos olhos com certeza é Jenna.
              Procuro por todos os lados, mas não encontro ninguém com olhos verdes-esmeralda, nem mesmo com o tom ao menos parecido. Então desisto talvez Jenna não estivesse na minha ficha.
              Tento prestar atenção ao professor e na experiência, ele estava falando algo sobre uma substância extremamente inflamável, mas logo perco a atenção de novo quando vejo que meu parceiro de laboratório tem olhos verdes-esmeralda.
              - Qual o seu nome? – Sussurro.
              - Philip. – Ele se vira para mim. – E o seu?
              - Certo Jenna, já pode parar com esse seu joguinho. – Falo.
              - Me acompanhe. – Jenna levanta-se e sai da sala sem nenhuma explicação.
              Não posso perder essa chance, não posso deixar Jenna escapar. Então eu simplesmente a sigo. Lembro que fiz o mesmo no meu primeiro dia de aula em Wave City, mas dessa vez o motivo era completamente diferente.
              Eu me sinto diferente, como se duas semanas nessa cidade me fizeram uma pessoa mais madura. Eu não estava saindo da sala por um motivo tolo e fútil, eu não estava saindo da sala para chorar por alguém. Eu estava saindo da sala para ajudar um amigo, para descobrir o que aconteceu com minha mãe... Para me vingar dos ínvidos.
              O professor grita nossos nomes, mas não olho para trás, escuto seus gritos vindos da porta, mas continuou andando, seguindo Jenna. Lembro que devo avisar para os outros que eu a encontrei, então começo a digitar no meu celular que Jenna era Philip e que eu estou com ela.
              Quando olho novamente para frente, Jenna não era mais Philip, ela era uma Jovem mulher com cerca de vinte e dois anos seus cabelos eram lisos e negros, e sua pele bronzeada. Uma versão feminina de Nick, imagino.
              Nós estamos saindo da escola quando ouço meu celular tocar, era Nick. Eu atendo.
              - Hey, sua irmã está aqui. – Falei, Jenna se virou rapidamente e pegou meu celular.
              - Oi irmãozinho. – Ela fala. – As pessoas te chamam de Nick agora? Eu preferia Rey, mas quem sou eu para julgar. – Nick fala alguma coisa para ela no celular. – Calma, eu e sua namorada vamos dar um passeio. – Ele fala mais alguma coisa. – Até mais. – E então se dirige a mim. – De agora em diante isso vai ficar comigo. – Ela falou levantando meu celular. – Ela se vira e por cima do ombro ela fala. – Vai me acompanhar ou preciso te amarrar?
              Decido ir com ela, mesmo sem saber ao certo para onde vamos. Não posso deixar Jenna escapar mais uma vez, Nick nunca me perdoaria. Nick. Porque estou preocupada com ele? Eu deveria estar preocupada com Derek, ele sim está em real perigo. Sinto-me horrível por Derek, não sei que tipo de coisas ele está tendo que passar.
              Nós duas entramos no carro – da Jenna, eu espero – E saímos do estacionamento. Demorou um tempo até eu conseguir formular uma das infinitas perguntas que tem na minha cabeça.
              - Para onde vamos? – pergunto com o tom de voz muito robótico. Como se eu tivesse ensaiado.
              - Salvar Derek. – Ela responde, então eu olho para ela. – Não era isso que você queria? Salvar o Derek?. – Fico paralisada. – Não se preocupe, vou deixar o chefão vivo para interrogatório.
              - Interrogatório? – Me sinto uma tola tendo que perguntar coisas tão óbvias, mas é que a minha ficha ainda não caiu com as intenções dela.
              - É gata, nós temos que saber tudo sobre sua mãe, - Jenna responde. – Ela ainda tem uma dívida comigo.
              - Conheceu minha mãe? – Pergunto. Ela responde que sim com um balançar de cabeça. – Porque não me contou? Porque não me disse nada enquanto estava na minha casa?
              - Porque minhas respostas levariam você até Nick. – Ela responde rapidamente. – E eu não queria que Nick se metesse nesse tipo de coisa... Eu não iria superar. – Seu tom de voz indica comoção, mas não noto nada no seu rosto capaz de me dizer que ela está chorando de verdade, então decido acreditar, por enquanto.
              - Mas antes de passar na caverna e derrotar todos os ínvidos, precisamos ir para um lugar. – Ela diz. – E infelizmente você não pode ver aonde nós vamos.

              Não sei como, mas ela me faz ficar cega, toco meu rosto o lugar onde deviam ficar os olhos, desapareceram, assim como minha boca. Sou praticamente um corpo que só pode respirar. A única coisa que posso fazer é esperar.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Solstício - Capítulo 15



Capítulo 15 – O rebelde



Erika



                Raiva. É o único sentimento que consigo definir no meio de um mar inteiro de emoções que estou vivendo nesse momento. Ela sabia. Ela sabia que eu gostava dele, mas ainda assim ela ficou com ele, e o pior enquanto eu estava presa naquela caverna ridícula.
                Os dois me olham com expressão de surpresa e eu os olho com olhar mais feio possível, não quero aceitar o que está acontecendo bem na minha frente, naquele exato momento. Mas percebo Aurora já havia soltado Nick, mas os braços dele ainda estão em volta do corpo dela. Uma vontade de vomitar me envolve, mas não posso me dar ao luxo de ele perceber que isso me afetou de alguma maneira.
                Mas Aurora, ela sim sabia de tudo, sabia que eu gostava dele, sabia que eu ainda o queria, talvez por isso ela tenha ficado com ele, ela queria me atingir. Ela... Conseguiu.
                - Erika. – Grita a Traidora. – Você está bem? – Ela vem correndo em minha direção.
                - Estou. – Só é preciso falar isso para que ela pare de correr e perceba que eu não gostei do que vi. – Mas que horas os dois iam parar de se pegar e tentar me resgatar? – Uma pontada no meu coração me surpreende, pela primeira vez eu percebi que talvez os dois nem estivessem ligando para mim.
                - O Nick tinha uma forma de tirar o ínvido do seu cérebro. – Aurora responde. – Mas já não é mais necessário. Como você escapou?
                - Tinha um ínvido que se revoltou com seu chefe, e me libertou. – falei. – Causou muitos problemas para os ínvidos na caverna. Aurora tenho um recado do ínvido revoltado para você, antes de eu sair ele entrou em mim e me falou para eu te dizer que ele sente muito. Então... Recado dado.
                - Ele... Sente muito? – Isso me pega de surpresa, eu não imaginei que Aurora realmente conhecesse o ínvido revoltado, mas parece que ela o conhecia. E pior parece que ela sabia exatamente o porquê das desculpas.
                - tem algo para nos contar? – Falo. – Tipo, sei lá, quem é ele?
                - Ele se chama Cameron, pelo menos eu acho que esse é seu verdadeiro nome. – Aurora começa a falar e percebo que essa será uma longa história. – Ele era meu namorado em Nova Iorque, mas agora sabemos que eu nunca morei lá, então ele fingiu ser meu namorado. Bem, ele terminou comigo ontem, no dia em que eu cheguei em Wave City. Eu acho que ele sempre foi um ínvido, e eu era somente uma parte do seu plano.
                - Resume que a história está chata. – Falo.
                - Certo. – Ela me olha de canto de olho e se vira para o mar. – Eu não tenho certeza, mas acho que foi ele quem me trouxe para essa cidade.
                - O que? – Nick interrompe.
                - É faz sentido. – Aurora continua. – Alguém deve ter me trazido para cá, e tenho quase certeza que não foi Ezra, muito menos minha mãe. – Na última palavra ela apenas abaixa a cabeça e não fala mais nada?
                - Mas por quê? – Falo. – Porque ele a traria para essa cidade?
                - Eu não sei. – Ela responde. – Para me proteger talvez?
                - Você acha mesmo que um ínvido tem sentimentos? – Nick parece ofendido com a teoria de Aurora. – O único sentimento que eles possuem são a inveja e a raiva. Não são humanos, não são como nós.
                - Nós não somos humanos. – Aurora completa. – E ainda assim temos sentimentos. Talvez não seja diferente com os ínvidos, talvez nem todos estejam metidos nessa causa, se é que há uma causa, que os ínvidos estão.
                Essas palavras pareceram decepcionar Nick, e isso era bom. Nick se afasta de Aurora e grita.
                - Os ínvidos fizeram minha irmã se tornar impura. – Essa eu não sabia. – Ela foi banida da minha família por ter me ajudado, ela não teve culpa. Aqueles malditos ínvidos tiveram.
                - Tem certeza? – Aurora grita também. – Foram eles quem torturaram e depois se tornaram uma espécie de caça ínvido? Acho que não.
                Isso deixou Nick sem palavras. Eu não estava entendendo metade das coisas que eles estavam falam, mas eu tinha que entra no meio da conversa, mesmo que eu não fique muito feliz com o que vou dizer.
                - Parem de brigar. – Digo. – Talvez os dois estejam certos. Os ínvidos são maus, mas talvez nem todos sejam.
                Os dois voltaram a se olhar, mas não falam nada. Essa conversa tinha desestruturado o que quer que os dois tenham.
                - Agora, por favor, me expliquem toda essa história de irmã impura e caçadores de ínvidos. – Digo.
                Nick me conta tudo. Que ele e sua irmã prenderam e torturaram um ínvido no corpo de um garoto de cerca de dez ou onze anos. Que esse ínvido chamou outros do seu bando e Nick e Jenna quase morreram por isso. Que por algum acaso Jenna descobriu como controlar os ínvidos no seu corpo. Que conseguiu tirar o ínvido do corpo do garoto. Que depois de alguns anos se tornaram um trio de bruxos caçadores de ínvidos e que tentavam encontrar bruxos de outros clãs.
                - Então... – Falo. – O que estamos esperando? Temos que encontrar sua irmã. Derek ainda precisa de nossa ajuda.


Quatorze dias depois.


 

                -“Continua desaparecido o garoto de dezessete anos de idade conhecido como Derek McAll. Fontes informam que ele foi visto pela última vez no estacionamento da Wave City High School há quatorze dias. Saiu de carro com três amigos antes mesmo das aulas começarem. – O jornal local mostra a foto minha de Nick e de Aurora. – Os três adolescentes foram interrogados e o julgamento de policia ainda não foi divulgado. O garoto foi o primeiro a desaparecer, por toda Wave City, desaparecimentos estão acontecendo com frequência. O que a policia recomenda é que...”
                Desligo a Televisão, eu não consigo aguentar esse tipo de coisa, principalmente co tudo que está acontecendo.
                Nas últimas duas semanas eu, Nick e Aurora temos tentado encontrar Jenna, mentir para a polícia e encontrar Derek, mas nada se saiu muito bem, exceto pela história que contamos a polícia. Dizemos que fomos roubados, isso custou ao Derek seu carro que agora estava no fundo do mar. Espero que quando ele voltar a si ele nos agradeça em vez de nos matar.
                São sete horas da manhã e estou tomando café preto para ver se consigo me manter em pé, não tenho dormido quase nada porque meus pais não sabem do meu plano de encontrar Jenna e tentar acabar com um bando de ínvidos, então nós três temos procurado por ela durante a madrugada.
                Aurora acaba de se levantar e eu a ofereço uma xícara de café. Ela senta-se ao meu lado e aceita. Eu estava com raiva dela, ma depois de um tempo e de tantas coisas para nós fazermos eu meio que esqueci minha raiva por um momento, e além do mais, Nick e ela não estão se esfregando um no outro, pelo menos não na minha frente.
                - Liga a televisão. – Aurora me pede. – Eleonor a madrasta de Derek vai dar uma entrevista para o jornal.
                Faço o que ela pede. Eleonor está mesmo na televisão, ela está na frente da casa dos McAll e está falando para o jornalista que sente falta do Derek e que espera que ele volte logo para casa, e ainda avisa aos assaltantes – mesmo que eles não existam – que devolvam o Derek, que ela dará o que for preciso para tê-lo de volta.
                Isso me deixa aflita, mas afeta ainda mais Aurora, sinto-me forçada a desligar a televisão para que Eleonor não fale mais alguma coisa que nos afete.
                Nick vem nos buscar de carro, e vamos para a escola, no caminho as palavras trocadas são de total foco em relação a encontrar Jenna, pelo que parece ela ainda está na cidade, mas por algum motivo não quer deixar ser encontrada.
                Paramos na vaga mais longe da escola e fomos andando, enquanto andávamos arquitetamos um plano para encontrar a Jenna.
                - Certo. – Falou Nick. – As duas procuram na parte do litoral da cidade hoje à noite, enquanto isso eu irei me disfarçar e procurar naquele bairro vagabundo onde tem hotéis baratos e bares.
                - Não. – falei. – Nós não vamos nos separar, precisamos ficar juntos, mas a idéia do disfarce é boa. Falo com vocês depois, as aulas vão começar daqui a pouco.
                Para não criar muita fofoca por parte dos alunos da escola eu desfiz o feitiço do horário de Aurora e agora nós só tínhamos algumas aulas juntas. Entro pelo corredor esquerdo e Nick e Aurora seguem em frete.
                Desde que Derek desapareceu metade dos alunos pensam que eu e os outros temos alguma coisa a ver com isso e nos julgam por isso. Eles não estão totalmente certos, mas não estão errados, me sinto culpada por ter deixado Derek na caverna há duas semanas, mas não podia ajudá-lo. Isso é frustrante.
                Minha primeira aula é de Aritmética e o Professor Jones já estava de volta. O que os alunos dizem pelo corredor é que ele não tinha ficado doente muito menos tinha mandado nenhum substituto. Todos diziam que o homem já estava ficando louco por conta da idade. Mas eu sabia a verdade, Jenna fizera isso.
                Eu não pude acreditar que deixei passar um detalhe na nossa procura por ela, eu devia estar procurando ela pela escola. Ela não ficaria muito longe do Nick sabendo que ele estava com problemas. Afinal de contas foi por isso que ela fingiu ser professora.

Solstício - Capítulo 14



Capítulo 14 –  Verdades



Nick



 


                Há muitas coisas acontecendo nesse momento, mas eu não pude resistir, eu não entendi muito bem o que eu mesmo estava fazendo até fazer.
                Um beijo, eu beijei mesmo uma garota que conheci ontem. Eu não sabia o porquê, mas eu tinha que fazer isso. Mas não pareceu agradá-la muito, nosso beijo durou algum tempo, mas ela recuou.
                Quando finalmente volto a abrir meus olhos lá estava ela, na minha frente, sua expressão era de completa surpresa.
                - Cameron. – Ela falou me confundiu com outra pessoa, é angustiante. Meu peito se despedaça e imagino que meu coração nesse momento parou. – Eu o ouvi... Era Cameron.
                - Quem? – Nada disso fazia sentido, primeiro ela recua do meu beijo, depois ela me olha com uma cara esquisita, e por fim ela escuta a voz de outra pessoa. – Eu não ouvi nada.
                - Ele estava... Na minha cabeça. – Ela parecia mais confusa do que eu. – Ele me libertou na caverna, ele realmente existiu. – Um sorriso se forma na sua face, mas logo depois é substituído por uma expressão de pavor. – Ele era um ínvido, para ele eu não passava de parte de um plano.
                Ela volta a chorar, tento consolá-la, mas desta vez nada funciona, então tudo que posso fazer é esperar.
                - Quem é esse tal de Cameron? – Pergunto, mesmo não parecendo à hora correta para isso.
                - Ele era meu namorado. – Ela fala sua voz ainda abafada por seu choro. – Nos conhecemos em Nova Iorque, ele terminou comigo quando vim para cá, eu não entendi o seu motivo, ainda não entendo, mas eu não sei qual a relação disso tudo.
                - Parece que temos mais um ínvido pra exorcizar. – Eu falo e ela me olha com uma cara engraçada, ela sentiu vontade de rir, mas não parecia apropriado. Então eu simplesmente rio, e ela me acompanha.
                - Temos que encontrar logo sua irmã. – Ela pare de rir e se solta de mim. – Mas primeiro você vai me explicar como vocês fazem esse feitiço.
                - Não vou mentir para você. – Digo, será difícil contar toda a verdade, mas será necessário. – Há alguns anos, quando éramos crianças, eu com cinco anos e ela com nove, nós meio que conseguimos prender um ínvido e... Torturá-lo. – Faço uma pausa, mas não é necessária ela absorve minhas palavras com imensa facilidade, talvez o ódio pelos ínvidos a tenha mudado. – O corpo era de uma criança e, bem, nós descobrimos que se um ínvido quiser, ele pode sair do cérebro de alguém sem deixar danos. Tanto psicológicos quanto na memória. E a parte de deixar jovem de novo é por nossa conta.
                - Mas como vocês conseguem fazer com que os ínvidos saiam do cérebro de alguém? – Ela me pergunta.
                - Bem é pra isso que eu preciso da minha irmã. – Falo e tento me lembrar com detalhes daquele dia. – No dia em que prendemos o ínvido, outros vieram resgatá-lo, parecia o fim do mundo, era como ter milhares de mentes em sua cabeça, cada uma mandando você fazer uma coisa diferente, a sensação é de que o corpo pode explodir a qualquer momento.
                “Parecia meu fim. Eu e minha irmã nos debatíamos e do nada ela consegue se controlar. De alguma forma ela conseguiu o controle total do seu cérebro, aprisionando assim todos os ínvidos que controlavam seu cérebro dentro dela.”
                “Metade dos corpos que estavam a nossa volta caíram, a outra metade me libertou com medo. O ínvido que estava preso por correntes saiu do corpo de garoto. Acontece que esse garoto que tinha uns onze anos, na verdade era Ezra. O mesmo homem que nós vimos hoje.”
                “A amizade de nós três começou ali, e quando minha irmã fez quinze anos, os dois começaram a sair juntos. Mas o que é importante é que, alguns anos mais tarde eu descobri como tirar um ínvido do corpo de alguém, mas eu preciso de outro corpo para ser o hospedeiro.”
                - E é aí que sua irmã entra. – Aurora fala, e eu aceno com a cabeça em sinal de concordância.
                - O problema é que com tantos ínvidos tomando o corpo da minha irmão, o colar da minha família me escolheu e não a escolheu. – Falo. – Meio que ela ainda tem raiva de mim por isso.
                - Então Jenna na verdade não é má. – Aurora fala e mais uma vez concordo.
                - Ela só tentou salvar minha vida. – Falo e tento lembrar mais uma vez daquele dia, da dor que eu senti, do medo que tive de morre e de perder minha irmã para sempre. – Precisamos ir.
                - Agora não. – Aurora me interrompe. – Precisa me falar mais algumas coisa.
                - Podemos falar enquanto andamos, - falo e me levanto. – será uma longa caminhada. – Ela se levanta e me acompanha.
                - Esse Ezra... – Ela começa a falar, mas algo a impede. – Ele é como nós?
                - A princípio eu achava que não, na verdade nunca passou pela minha cabeça. Mas um dia ele aparece com um colar semelhante ao da minha família. – Tiro meu colar da camisa e mostro a ela. Ele tem o formato de uma folha seca. - O colar dele não era igual a esse, no pingente tinha um relógio de bolso que servia como bússola. A principio eu e minha irmã estranhamos, mas ele nos explicou tudo sobre o seu clã e foi aí que nós três dedicamos nossa vida a encontrar outros clãs e exterminar alguns ínvidos.
                “A princípio de tudo certo, descobrimos o suficiente sobre quatro clãs e paramos de procurar por respostas por um alguns anos, depois de um tempo Ezra descobriu um novo clã e foi atrás de informações isso foi...”
                - Há dois anos... – Ela me interrompe, mas era exatamente o que eu ia dizer. – Por que tudo está interligado nesse únicos dois anos? É como se minha vida começasse somente ali.
                Ela para e eu também paro, só solto sua mão quando percebo que estou a segurando.
                - Você... – Ela começa. – Me deu a pensar que você era gay. Quando nos conhecemos você praticamente disse isso, então porque me beijou?
                - É sério? – Me sinto um pouco envergonhado. – Com tantos problemas você está preocupada com isso?
                - Sim. – Ela fala, e me sinto preso e tenho que falar a verdade.
                - A verdade é que eu sou gay, mas... – Continuou. – Com você é diferente, eu não sei o que é, mas, eu não sinto que quando eu estou com você é errado, pelo contrario, me sinto eu mesmo.
                Eu nunca tinha falado com ninguém sobre isso, então porque eu estava falando com ela daquele jeito?  Ela devia estar fazendo alguma coisa.
                - Aurora, - Começo, mesmo sem saber qual o rumo que essa conversa vai levar. – Qual o seu clã? Qual sua especialidade?
                - Bem eu não sei... – Ela fala meio sem graça. – Eu não tenho certeza, mas quando eu toco algum bruxo, seus poderes se ampliam. Esse é talvez o pior clã de todos.
                - Ou talvez o mais sensacional. – Era incrível, se eu tivesse meus poderes ampliados talvez eu conseguisse ter o mesmo poder que minha irmã tem talvez eu seja tão forte quanto ela.
                - Não pense nisso. – Ela fala como se estivesse lendo minha mente. – Se você tentar prender um ínvido no seu corpo e dominá-lo você se tornará impuro e perderá a pose do colar. E com tudo que estamos enfrentado, ele é muito importante não acha?
                Ela estava preocupada comigo, e eu estava muito feliz por isso.
                - Temos que tentar uma coisa. – Falo.
                Dou um beijo nela. E uma voz ecoa na minha cabeça, demora um tempo para eu perceber que a voz não está vindo da minha cabeça e sim do mundo real. Era Erika.
                - Posso interromper?