sábado, 12 de julho de 2014

Solstício - Capítulo 16

Capítulo 16 – Face de ninguém
Aurora
 


              Desde que Derek sumiu não consigo prestar atenção às aulas e o tempo parece passar cada vez mais devagar. Sinto-me completamente perdida e às vezes pergunto a mim mesma qual o propósito de continuar naquela cidade, afinal de contas eu só estou aqui por conta do trabalho da minha mãe, mas descobri que ela não está mais viva, então o que eu deveria estar fazendo aqui?
              Fico presa nesse pensamento até a hora em que sinto meu celular vibrar. Era Nick. “DAQUI A DEZ MINUTOS. ATRÁS DAS ARQUIBANCADAS DO CAMPO DE LACROSS.” Olho que horas são, faltam dez minutos pra a hora do almoço. Não imaginei que tinha passado tanto tempo perdida nos meus próprios pensamentos.
              O sinal toca, e todos da escola vão em direção ao refeitório. Eu sou a única que está indo na direção contrária. Estava quase chegando ao campo de lacrasse quando vejo Erika.
              - Recebeu a mensagem também? – Ela me pergunta.
              - Sim. – Sim. Respondo um pouco confusa. – O que será que ele tem para nos dizer?
              - Eu mandei uma mensagem para ele mais cedo. – Erika olhou para seu celular casualmente. – Acho que achei uma pista do paradeiro de Jenna.
              Esperamos por ele por mais alguns minutos e ele chega com alguns papeis nas mãos.
              - Pessoal, tenho algumas coisas interessantes para mostrar para vocês. – Ele senta-se no chão e espalhas os papeis em seis pilhas. – Cada pilha dessas representa um aluno ou um funcionário que entrou na escola nas últimas duas semanas.
              Sento-me de frente para Nick. E Erika faz o mesmo.
              - Tem alguma pista? – Falo. – Algo que possa indicar quem é a Jenna?
              - Tem uma coisa que nós do clã da natureza não conseguimos mudar, nem quando mudados de aparência. – Ele faz uma pausa dramática. – Nossos olhos. A cor deles não muda. Não conseguimos esconder sua cor nem mesmo se usarmos lentes.
              Em outros momentos eu me perguntaria quem seria tão desequilibrado mentalmente para querer esconder a cor dos próprios olhos, mas em uma situação como essa eu posso entender. Os bruxos do clã da natureza pode-se transformar em quem quiser, mas são entregues pela cor dos próprios olhos. Isso seria o ponto fraco de um bruxo do clã da natureza? Assim como a fraqueza de um bruxo do sol é a lua e a fraqueza de um bruxo da lua é o sol?
              E mais uma questão se forma na minha cabeça. Qual seria minha fraqueza? Qual seria meu ponto fraco? Eu desconheço. Mas será que alguém conhece minha fraqueza? Dessa forma seria muito fácil acabar comigo, afinal de contas nem eu mesma conheço minha fraqueza.
              - Então tudo que devemos fazer é descobrir se um deles tem a cor dos olhos da mesma tonalidade que os seus? – Erika fala.
              - Basicamente. – Nick responde com uma ponta de esperança surgindo do fundo da sua garganta.
              - Então cada um fica com dois deles, e certifica-se que seja ou não Jenna. – Falo.
              - Parece um bom plano. – Nick se vira para mim e sorri.
              Peguei as duas pilhas da minha esquerda e saí. Apenas quando cheguei ao meu armário eu li os nomes escritos o primeiro era o meu próprio nome. Talvez Nick tenha roubado as fichas e saído correndo antes de se certificar dos nomes. O outro nome é Philip Hale. Um garoto do terceiro ano. Na ficha tem o seu horário, suas alergias, seu tipo sanguíneo e seu endereço. Olho o seu horário e noto que temos o próximo tempo juntos. Isso me parece à chance perfeita.
              O sinal toca mais uma vez e vou direto para a aula de Química. Jenna devia estar por lá, ou talvez fosse somente um garoto chamado Philip mesmo.
              O professor entra na sala e nos separa em duplas. Na aula de hoje íamos fazer uma reação química, mas não prestei muita atenção. Eu estava procurando alguém com olhos verdes-esmeralda. Não era uma cor muito comum, então tenho certeza que se eu encontrar alguém com essa tonalidade nos olhos com certeza é Jenna.
              Procuro por todos os lados, mas não encontro ninguém com olhos verdes-esmeralda, nem mesmo com o tom ao menos parecido. Então desisto talvez Jenna não estivesse na minha ficha.
              Tento prestar atenção ao professor e na experiência, ele estava falando algo sobre uma substância extremamente inflamável, mas logo perco a atenção de novo quando vejo que meu parceiro de laboratório tem olhos verdes-esmeralda.
              - Qual o seu nome? – Sussurro.
              - Philip. – Ele se vira para mim. – E o seu?
              - Certo Jenna, já pode parar com esse seu joguinho. – Falo.
              - Me acompanhe. – Jenna levanta-se e sai da sala sem nenhuma explicação.
              Não posso perder essa chance, não posso deixar Jenna escapar. Então eu simplesmente a sigo. Lembro que fiz o mesmo no meu primeiro dia de aula em Wave City, mas dessa vez o motivo era completamente diferente.
              Eu me sinto diferente, como se duas semanas nessa cidade me fizeram uma pessoa mais madura. Eu não estava saindo da sala por um motivo tolo e fútil, eu não estava saindo da sala para chorar por alguém. Eu estava saindo da sala para ajudar um amigo, para descobrir o que aconteceu com minha mãe... Para me vingar dos ínvidos.
              O professor grita nossos nomes, mas não olho para trás, escuto seus gritos vindos da porta, mas continuou andando, seguindo Jenna. Lembro que devo avisar para os outros que eu a encontrei, então começo a digitar no meu celular que Jenna era Philip e que eu estou com ela.
              Quando olho novamente para frente, Jenna não era mais Philip, ela era uma Jovem mulher com cerca de vinte e dois anos seus cabelos eram lisos e negros, e sua pele bronzeada. Uma versão feminina de Nick, imagino.
              Nós estamos saindo da escola quando ouço meu celular tocar, era Nick. Eu atendo.
              - Hey, sua irmã está aqui. – Falei, Jenna se virou rapidamente e pegou meu celular.
              - Oi irmãozinho. – Ela fala. – As pessoas te chamam de Nick agora? Eu preferia Rey, mas quem sou eu para julgar. – Nick fala alguma coisa para ela no celular. – Calma, eu e sua namorada vamos dar um passeio. – Ele fala mais alguma coisa. – Até mais. – E então se dirige a mim. – De agora em diante isso vai ficar comigo. – Ela falou levantando meu celular. – Ela se vira e por cima do ombro ela fala. – Vai me acompanhar ou preciso te amarrar?
              Decido ir com ela, mesmo sem saber ao certo para onde vamos. Não posso deixar Jenna escapar mais uma vez, Nick nunca me perdoaria. Nick. Porque estou preocupada com ele? Eu deveria estar preocupada com Derek, ele sim está em real perigo. Sinto-me horrível por Derek, não sei que tipo de coisas ele está tendo que passar.
              Nós duas entramos no carro – da Jenna, eu espero – E saímos do estacionamento. Demorou um tempo até eu conseguir formular uma das infinitas perguntas que tem na minha cabeça.
              - Para onde vamos? – pergunto com o tom de voz muito robótico. Como se eu tivesse ensaiado.
              - Salvar Derek. – Ela responde, então eu olho para ela. – Não era isso que você queria? Salvar o Derek?. – Fico paralisada. – Não se preocupe, vou deixar o chefão vivo para interrogatório.
              - Interrogatório? – Me sinto uma tola tendo que perguntar coisas tão óbvias, mas é que a minha ficha ainda não caiu com as intenções dela.
              - É gata, nós temos que saber tudo sobre sua mãe, - Jenna responde. – Ela ainda tem uma dívida comigo.
              - Conheceu minha mãe? – Pergunto. Ela responde que sim com um balançar de cabeça. – Porque não me contou? Porque não me disse nada enquanto estava na minha casa?
              - Porque minhas respostas levariam você até Nick. – Ela responde rapidamente. – E eu não queria que Nick se metesse nesse tipo de coisa... Eu não iria superar. – Seu tom de voz indica comoção, mas não noto nada no seu rosto capaz de me dizer que ela está chorando de verdade, então decido acreditar, por enquanto.
              - Mas antes de passar na caverna e derrotar todos os ínvidos, precisamos ir para um lugar. – Ela diz. – E infelizmente você não pode ver aonde nós vamos.

              Não sei como, mas ela me faz ficar cega, toco meu rosto o lugar onde deviam ficar os olhos, desapareceram, assim como minha boca. Sou praticamente um corpo que só pode respirar. A única coisa que posso fazer é esperar.

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