Capítulo 16 – Face de
ninguém
Aurora
Desde
que Derek sumiu não consigo prestar atenção às aulas e o tempo parece passar
cada vez mais devagar. Sinto-me completamente perdida e às vezes pergunto a mim
mesma qual o propósito de continuar naquela cidade, afinal de contas eu só
estou aqui por conta do trabalho da minha mãe, mas descobri que ela não está
mais viva, então o que eu deveria estar fazendo aqui?
Fico
presa nesse pensamento até a hora em que sinto meu celular vibrar. Era Nick.
“DAQUI A DEZ MINUTOS. ATRÁS DAS ARQUIBANCADAS DO CAMPO DE LACROSS.” Olho que
horas são, faltam dez minutos pra a hora do almoço. Não imaginei que tinha
passado tanto tempo perdida nos meus próprios pensamentos.
O
sinal toca, e todos da escola vão em direção ao refeitório. Eu sou a única que
está indo na direção contrária. Estava quase chegando ao campo de lacrasse
quando vejo Erika.
-
Recebeu a mensagem também? – Ela me pergunta.
-
Sim. – Sim. Respondo um pouco confusa. – O que será que ele tem para nos dizer?
-
Eu mandei uma mensagem para ele mais cedo. – Erika olhou para seu celular
casualmente. – Acho que achei uma pista do paradeiro de Jenna.
Esperamos
por ele por mais alguns minutos e ele chega com alguns papeis nas mãos.
-
Pessoal, tenho algumas coisas interessantes para mostrar para vocês. – Ele
senta-se no chão e espalhas os papeis em seis pilhas. – Cada pilha dessas representa
um aluno ou um funcionário que entrou na escola nas últimas duas semanas.
Sento-me
de frente para Nick. E Erika faz o mesmo.
-
Tem alguma pista? – Falo. – Algo que possa indicar quem é a Jenna?
-
Tem uma coisa que nós do clã da natureza não conseguimos mudar, nem quando mudados
de aparência. – Ele faz uma pausa dramática. – Nossos olhos. A cor deles não
muda. Não conseguimos esconder sua cor nem mesmo se usarmos lentes.
Em
outros momentos eu me perguntaria quem seria tão desequilibrado mentalmente
para querer esconder a cor dos próprios olhos, mas em uma situação como essa eu
posso entender. Os bruxos do clã da natureza pode-se transformar em quem
quiser, mas são entregues pela cor dos próprios olhos. Isso seria o ponto fraco
de um bruxo do clã da natureza? Assim como a fraqueza de um bruxo do sol é a
lua e a fraqueza de um bruxo da lua é o sol?
E
mais uma questão se forma na minha cabeça. Qual seria minha fraqueza? Qual
seria meu ponto fraco? Eu desconheço. Mas será que alguém conhece minha
fraqueza? Dessa forma seria muito fácil acabar comigo, afinal de contas nem eu
mesma conheço minha fraqueza.
-
Então tudo que devemos fazer é descobrir se um deles tem a cor dos olhos da
mesma tonalidade que os seus? – Erika fala.
-
Basicamente. – Nick responde com uma ponta de esperança surgindo do fundo da
sua garganta.
-
Então cada um fica com dois deles, e certifica-se que seja ou não Jenna. – Falo.
-
Parece um bom plano. – Nick se vira para mim e sorri.
Peguei
as duas pilhas da minha esquerda e saí. Apenas quando cheguei ao meu armário eu
li os nomes escritos o primeiro era o meu próprio nome. Talvez Nick tenha
roubado as fichas e saído correndo antes de se certificar dos nomes. O outro
nome é Philip Hale. Um garoto do terceiro ano. Na ficha tem o seu horário, suas
alergias, seu tipo sanguíneo e seu endereço. Olho o seu horário e noto que
temos o próximo tempo juntos. Isso me parece à chance perfeita.
O
sinal toca mais uma vez e vou direto para a aula de Química. Jenna devia estar
por lá, ou talvez fosse somente um garoto chamado Philip mesmo.
O
professor entra na sala e nos separa em duplas. Na aula de hoje íamos fazer uma
reação química, mas não prestei muita atenção. Eu estava procurando alguém com
olhos verdes-esmeralda. Não era uma cor muito comum, então tenho certeza que se
eu encontrar alguém com essa tonalidade nos olhos com certeza é Jenna.
Procuro
por todos os lados, mas não encontro ninguém com olhos verdes-esmeralda, nem
mesmo com o tom ao menos parecido. Então desisto talvez Jenna não estivesse na
minha ficha.
Tento
prestar atenção ao professor e na experiência, ele estava falando algo sobre
uma substância extremamente inflamável, mas logo perco a atenção de novo quando
vejo que meu parceiro de laboratório tem olhos verdes-esmeralda.
-
Qual o seu nome? – Sussurro.
-
Philip. – Ele se vira para mim. – E o seu?
-
Certo Jenna, já pode parar com esse seu joguinho. – Falo.
-
Me acompanhe. – Jenna levanta-se e sai da sala sem nenhuma explicação.
Não
posso perder essa chance, não posso deixar Jenna escapar. Então eu simplesmente
a sigo. Lembro que fiz o mesmo no meu primeiro dia de aula em Wave City, mas
dessa vez o motivo era completamente diferente.
Eu
me sinto diferente, como se duas semanas nessa cidade me fizeram uma pessoa
mais madura. Eu não estava saindo da sala por um motivo tolo e fútil, eu não
estava saindo da sala para chorar por alguém. Eu estava saindo da sala para ajudar
um amigo, para descobrir o que aconteceu com minha mãe... Para me vingar dos
ínvidos.
O
professor grita nossos nomes, mas não olho para trás, escuto seus gritos vindos
da porta, mas continuou andando, seguindo Jenna. Lembro que devo avisar para os
outros que eu a encontrei, então começo a digitar no meu celular que Jenna era
Philip e que eu estou com ela.
Quando
olho novamente para frente, Jenna não era mais Philip, ela era uma Jovem mulher
com cerca de vinte e dois anos seus cabelos eram lisos e negros, e sua pele
bronzeada. Uma versão feminina de Nick, imagino.
Nós
estamos saindo da escola quando ouço meu celular tocar, era Nick. Eu atendo.
-
Hey, sua irmã está aqui. – Falei, Jenna se virou rapidamente e pegou meu celular.
-
Oi irmãozinho. – Ela fala. – As pessoas te chamam de Nick agora? Eu preferia
Rey, mas quem sou eu para julgar. – Nick fala alguma coisa para ela no celular.
– Calma, eu e sua namorada vamos dar um passeio. – Ele fala mais alguma coisa.
– Até mais. – E então se dirige a mim. – De agora em diante isso vai ficar
comigo. – Ela falou levantando meu celular. – Ela se vira e por cima do ombro
ela fala. – Vai me acompanhar ou preciso te amarrar?
Decido
ir com ela, mesmo sem saber ao certo para onde vamos. Não posso deixar Jenna
escapar mais uma vez, Nick nunca me perdoaria. Nick. Porque estou preocupada
com ele? Eu deveria estar preocupada com Derek, ele sim está em real perigo.
Sinto-me horrível por Derek, não sei que tipo de coisas ele está tendo que
passar.
Nós
duas entramos no carro – da Jenna, eu espero – E saímos do estacionamento.
Demorou um tempo até eu conseguir formular uma das infinitas perguntas que tem
na minha cabeça.
-
Para onde vamos? – pergunto com o tom de voz muito robótico. Como se eu tivesse
ensaiado.
-
Salvar Derek. – Ela responde, então eu olho para ela. – Não era isso que você
queria? Salvar o Derek?. – Fico paralisada. – Não se preocupe, vou deixar o
chefão vivo para interrogatório.
-
Interrogatório? – Me sinto uma tola tendo que perguntar coisas tão óbvias, mas
é que a minha ficha ainda não caiu com as intenções dela.
-
É gata, nós temos que saber tudo sobre sua mãe, - Jenna responde. – Ela ainda
tem uma dívida comigo.
-
Conheceu minha mãe? – Pergunto. Ela responde que sim com um balançar de cabeça.
– Porque não me contou? Porque não me disse nada enquanto estava na minha casa?
-
Porque minhas respostas levariam você até Nick. – Ela responde rapidamente. – E
eu não queria que Nick se metesse nesse tipo de coisa... Eu não iria superar. –
Seu tom de voz indica comoção, mas não noto nada no seu rosto capaz de me dizer
que ela está chorando de verdade, então decido acreditar, por enquanto.
-
Mas antes de passar na caverna e derrotar todos os ínvidos, precisamos ir para
um lugar. – Ela diz. – E infelizmente você não pode ver aonde nós vamos.
Não
sei como, mas ela me faz ficar cega, toco meu rosto o lugar onde deviam ficar
os olhos, desapareceram, assim como minha boca. Sou praticamente um corpo que
só pode respirar. A única coisa que posso fazer é esperar.
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