Capítulo 5 - Solidão
Parecia
o fim pra mim, havia água por todo lado e estávamos descendo cada vez mais
depressa. Não conseguia respirar eu sentia que a qualquer momento meus pulmões
iriam se encher de água. Tento abrir os olhos, mas não consigo, nenhum músculo do
meu corpo respondia.
Estávamos
cada vez mais caindo. Tão rápido quanto, paramos. Mas paramos porque chegamos,
podia sentir que em baixo de mim havia chão outra vez e sentia também que toda
a água ao redor dera chance ao ar. Finalmente consigo respirar. As vestes de
todos estavam inteiramente molhadas, com exceção das roupas de Tamires, parecia
que a garota não havia sido molhada.
Tamires
olhou para si com o mesmo olhar que todos haviam dado a ela.
-Meus
poderes voltaram – Disse a garota, agora com um enorme sorriso no rosto, os
dentes mais brancos que já vi – Agora precisamos saber quem nos trouxe aqui
dessa maneira.
Olho
em volta, tudo que eu conseguia ver era uma sala cheia de estátuas de Poseidon,
paredes úmidas e algas que brotavam do chão. Parecia que o lugar todo havia
sido esvaziado de água e substituído por ar puro.
-
Há algo de errado – Disse Tamires – Eu já estive aqui, sempre foi cheio de
vida, com muito movimento, e meu pai nunca sai do seu trono – Disse a garota apontando
para um trono gigante.
-
Vamos dar uma olhada por aí – Disse Jake, seus cabelos agora não pareciam
molhados (acho que são os poderes de Afrodite) – Talvez encontremos alguém.
Andamos
pelo que parecia ser um labirinto com tema aquático, às vezes víamos uma janela
com vista para o mar. Parecia muito calmo diferente do que eu pensei.
Continuamos andando e começamos a descer algumas escadas.
-
Não deixe o lorde morrer! – Uma voz muito baixa e fraca saía de dentro de uma
cela – Por favor, meu lorde precisa de ajuda, vão, ele está na ultima cela, rápido.
Corremos
o mais rápido que podemos. A última cela tinha uma porta completamente fechada,
impossibilitando ver quem estava do outro lado.
-
Se os poderes da Tamires voltaram, os meus também devem ter voltado – Disse John,
levantando os braços e depois dando um soco na porta maciça – Acho que não
voltaram. – John caiu de dor, mas logo fingiu não ter sido nada.
-Chrystian
tente alguma coisa – Falou Tamires – Tente derreter a porta.
Eu
só havia feito aquilo uma vez, e foi completamente sem querer, não sabia se ia conseguir.
Balancei meus dedos da mesma forma que no dia do incêndio, mas nada aconteceu.
Então tive uma súbita idéia. Peguei o arco no meu bolso e o desdobrei, depois
peguei uma flecha na minha aljava presa na minha perna. Apontei a flecha para a
porta.
-Até
parece que vai conseguir derrubar uma porta de aço com uma flecha – Falou Clícya
em um tom sarcástico.
Respirei
fundo e deixei toda a raiva que estava sentindo sair de mim e coloquei na
flecha, que repentinamente começou a pegar fogo num tom tão amarelo que parecia que estava pegando o Sol.
Soltei
a flecha. A porta se quebrou inteira, como se fosse feita de vidro. Do outro
lado não havia ninguém. Todos olharam uns pros outros e depois de novo pra cela
vazia. Fomos empurrados para dentro da cela, uma nova porta se formou no lugar
da antiga.
Levantamos-nos,
e quando dei por mim, meus amigos haviam desaparecido diante dos meus olhos. Um
homem apareceu atrás de mim.
-
Nós não sabemos o que fazer com vocês filhos e filhas de Apolo e Afrodite.
Realmente nos dias atuais só se pensa em futilidades e fim do mundo. – Falou o
desconhecido com pele muito branca e olheiras no rosto. – Os humanos só pensam
em si mesmo, não que isso seja ruim pra nós.
-Quem
é você? – Falou olhando pela primeira vez nos seus olhos, não havia nenhuma
parte íris nem pupila, eram apenas duas orbitas completamente brancas – O que
você é? - Digo reformulando minha
pergunta.
-
Meu nome verdadeiro não importa – Disse se aproximando de mim – Mas os humanos
inventaram um nome pra mim e para cada um de meus irmãos, vocês me chamam de
Autofobia, ou medo da solidão. Sabe esse nome me define bem.
Lembrei
do pedaço da profecia que Quíron nos contou: “Na casa de cada grande se instalou, o medo mais forte que os deuses se
mostrou”. Era isso que Quírion queria dizer com medo.
-
É natural que o rei um dia caia e seus filhos tomem o poder. – Disse o homem –
Aconteceu com Urano, com Cronos, e agora a história vai se repetir com Zeus e
os outros deuses do Olimpo. Nosso pai Zeus nos criou sem querer, implantou o
medo em cada criatura viva, e o que mais forte do que a crença para ajudar a
fortalecer alguém?
”A
falta da crença pode matar um deus, sei disso porque vi isso acontecer com Pã.
Então a única coisa que preciso é fazer os humanos pararem de acreditar em cada
parte dos deuses, pararem de acreditar na sua existência podre. Mas isso foi difícil,
levou anos conseguimos com Pã e acho que podemos conseguir com todos. O único
problema é que as pessoas não deixaram de acreditar no Sol, quero dizer
aquecimento global, implantamos o aquecimento global para que parem de
acreditar no Sol, mas só tornou Apolo mais forte ainda. Quanto a Afrodite, ela
é a deusa do amor, mais um item que havíamos cortado a nossa lista, só
esquecemos um detalhe ela também é a deusa da beleza, humanidade podre.”
-
Agora semideus - Falou o homem - você será condenado ao esquecimento, diga alô
ao confinamento. – Suas orbitas foram escurecendo até ficarem pretas. Quando
dei por mim, estava tudo escuro, eu estava sozinho.
Tudo
agora começava a clarear, eu estava em casa, na minha casa de verdade. Talvez
tudo isso fosse apenas um sonho, meus poderes, meus irmãos, o acampamento e...
A morte dos meus pais. Levanto-me e ando por toda casa a procura deles. Não tem
ninguém. Saí pelos fundos para ver se estavam no jardim, nada. Saio pela rua e
não os vejo. Ando por todos os lados, não tem ninguém. Não há nem mesmo animais
na rua.
Estou
completamente só.
***
Já
estou ao que parecem duas horas andando sem parar, já passara da hora do almoço
e eu estava com muita fome. Entrei em um restaurante qualquer e comecei a fazer
comida para mim. Chamas surgiram da minha mão e uma explosão aconteceu.
Para
todo lado que eu olhava tinha destroços do que seria o restaurante há um minuto.
Por um segundo fiquei feliz de não haver mais ninguém aminha volta. Fiquei
feliz de não ter matado mais ninguém. Eu sou um monstro e preciso ser parado.
Então
assim como se percebe que está dormindo durante um sonho, eu lembrei o porquê
de eu realmente estar ali. Autofobia tinha feito algo e eu precisava para-lo.
-
Pessoal acordem – Uma voz longe gritava, ouvi um barulho de uma coisa sendo
jogada – Acordem, por favor, não sei o que houve com vocês. Ahhh – Esse último
grito foi o que me fez acordar de verdade, Tamires estava sendo suspensa pelo
ar, parecia estar sendo enforcada, mas não havia ninguém a segurando.
Levanto-me
e percebo que só quem acordou fui eu. Jake, John e Clícya pareciam estar em um
sono tão profundo que se não estivessem respirando podia jurar que estivessem
mortos.
Corro
para ajudar Tamires, e ela se solta do que quer que a tenha segurando. Seu pescoço
estava vermelho e ela agora parecia estar recuperando o ar.
Solidão
aparece e com um súbito mover de mãos me joga contra a parede. Pego meu cordão
e grito: Surja Mercuris. A espada estava na minha mão e eu estava correndo em
direção ao homem para atacá-lo. Assim como ele fez com Tamires, Autofobia me
pegou pelo pescoço.
Foi
pior que a sensação de afogamento, era angustiante e ao mesmo tempo dolorosa,
nunca havia sentido algo igual em toda minha vida. Minha visão começou a
embaçar. E então fui solto. Caí no chão e recuperei meu fôlego. Tamires tinha
me ajudado.
Foi
então que eu percebi uma coisa que agora me parecia muito óbvia.
-
Tamires – Falei chamando a atenção dela e de Solidão – Qual o melhor jeito de
se vencer o medo?
-
Sei lá, aceitá-lo? – disse a garota tentando jogar uma flecha.
-
Isso – Falei – E qual o melhor modo de aceitá-lo?
-
Lutando contra – A garota pareceu que tinha entendido o que eu disse. - Pronto?
-
Claro. – Falei. Autofobia não parecia estar entendendo nada.
Tamires
chegou perto de mim e pegou uma flecha. Fiz o mesmo. Ficamos de costa um pro
outro, as duas flechas apontadas para o homem. Tamires fechou os olhos, fiz o
mesmo.
Quando
abri meus olhos minha flecha pegava fogo e a dela esta envolta de gelo que mais
parecia diamante. Das flechas brotavam uma luz amarela e uma luz cinza-azulado.
-
Por Apolo! – Gritei
-
Por Artemis! – Tamires gritou.
Soltamos
as flechas ao mesmo tempo. As duas estavam indo em direção ao homem. Como eu o
esperava só conseguiu desviar uma. A flecha de Tamires entrou fundo no peito
dele. O homem caiu e começou a se desintegrar.
Corri
para a direção dos outros. Tamires fez o mesmo. Eles estavam acordando. Olhei
para Tamires e perguntei:
-
Como conseguiu sair do sonho antes de todos?
-
É simples – Falou ela com os olhos profundos – Sempre fui eu contra o mundo
inteiro. Eu não tinha pais, no acampamento eu não tive irmãos presentes e com
as caçadoras não foi diferente, nenhuma delas fala comigo. Acham que eu fui a causa
de começarem a envelhecer. Eu
sempre fui sozinha e por isso foi mais fácil de sair do sonho. Mas se não fosse
por você, mesmo sendo um garoto, eu não teria conseguido vencer ele. Obrigado.
Aos
poucos os outros foram acordando. Uma luz brilhou no fundo da cela onde estávamos.
-
Chrystian, Tamires – Falou Quíron que parecia estar falando conosco por vídeo-chamada.
– Cadê os outros estão bem? – Todos se levantaram do chão. – O que está
havendo.
Ao
que parece todos tiveram o mesmo tipo de sonho. E Autofobia explicara tudo a
todos. Falamos tudo, em relação a ele, o fato de ser filho de Zeus, de não ser
o único, e que o poder dos deuses e monstros estavam sendo afetados por eles.
-
Hm entendo – Falou Quíron pensativo – Agora a profecia se torna mais concreta. Por
falar nisso. Nosso oráculo conseguiu a profecia completa:
Na casa dos grandes se Instalou
O medo, mais forte que os deuses
se mostrou.
Por provações os semideuses devem
passar
Se o Olimpo quiserem salvar
A morte pode não ser
Aquilo que se esperou
-
Como vocês mesmos disseram, foi um tipo de prova que ele fez vocês passarem,
encontre Poseidon e vejam se está tudo bem. Depois disso vão até o reino de
Hades, se a profecia estiver certa, ele também deve estar com problemas.
Nós
olhamos e a imagem de Quíron desapareceu, estávamos de novo na cela escura e
fechada e agora conseguíamos ouvir movimento lá em cima.
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