segunda-feira, 16 de junho de 2014

Solstício - Capítulo 10



Capítulo 10 – Ínvidos

Aurora

 


                Acordo ouvindo o som dos pássaros, em Nova Iorque isso não seria possível, o som dos carros e a distância do Central Park não me deixaria ouvi-los pela manhã.
                A luz do sol está no meu rosto, mas eu não me incomodo, por enquanto. Fico deitada por cerca de meia hora, sem me mexer, não queria acordar Erika.
                Ontem, quase o dia inteiro, ela foi completamente horrível comigo. Tudo que ela fazia era para me atingir de uma forma ruim, mas ontem à noite nós nos entendemos, foram quase dez minutos, e ela me tratou muito bem. Por um minuto me sinto culpada pela mentira que contei a respeito do Nick Reynard.
                Nick, o garoto dos olhos verde-esmeralda. Os olhos parecidos com o de... Becca. A garota que descende do mesmo bruxo que eu. Robert Reynard... Reynard. Ai Meu Deus, como eu pude ser tão estúpida.
                Levando-me rapidamente, meus planos de tentar não acordar a Erika já eram. Joguei-me no chão e sacudi o corpo dela.
                - É o Nick, - Falei o mais devagar que consegui, mas não era possível, meu coração estava acelerado. – É o Nick, acorda.
                - O que? – Ela suspira e leva um tempo para ela assimilar tudo o que estava acontecendo. – Nick está aqui? O que ele está fazendo aqui?
                - Não, ele não está aqui. – Sua cara de decepção me afeta, mas eu não hesito. – É o Nick, ele é o irmão da Becca. Ele é o bruxo portador do amuleto da natureza.
                - O que? – Ela levanta e tenta se equilibrar, mas o estado de sono é maior e ela tomba por cima da cama. Sento-me ao seu lado. – Tem certeza? Como chegou a essa conclusão? Sonhou com isso?
                - Não, presta atenção. – Tento ais uma vez falar devagar. – Os olhos dos dois são da mesma tonalidade e o sobrenome dele é Reynard, o mesmo sobrenome de James e Robert, nossos antepassados.
                - Garota, calma. – Ela fala ainda tentando pensar. – Sab como sobrenome Reynard é comum? E outra Becca é do clã da natureza, ela pode mudar a natureza dos seus olhos e colocá-los da cor que quiser.
                - Tem razão, mas a Becca disse que o irmão dela estava na detenção conosco. – Eu tento arrumar mais argumentos, mas agora que parei para pensar parecia um tipo no escuro. – E pelo que eu sei Nick mora aqui há muito tempo, fato que Becca confirmou sobre seu irmão.
                Ela para e pensa, seu rosto muda de expressões e vão de “essa garota está completamente insana” para a expressão “talvez ela tenha razão”.
                - Está começando a fazer sentido. – Ela diz e mais uma vez ela tenta se levantar, dessa vez tem sucesso. – Mas não vamos nos precipitar, se Nick é um bruxo ele já deve saber disso há muito tempo, talvez há mais tempo que eu. Não vamos falar nada pro meu pai até termos certeza, temos que fazer isso o mais sigiloso possível.
                Eu não entendi o porquê do seu pai não poder saber, mas depois pensei direito. Talvez se fosse verdade tudo isso, significaria que Nick estava mentindo, o que faria o Sr. Grey ficar desconfiado, e o plano dela namorar Nick iria por água a baixo.
                Eu sabia que não seria possível que Nick fosse ficar com a Erika, mas apenas eu sabia. Esse não era um segredo para se revelar, pelo menos agora não.
                Eu apenas aceno com a cabeça em sinal de aprovação e Erika vai em direção ao guarda roupa e joga uma blusa azul e um jeans escuro.
                - Se vira com isso. – Ela diz e depois sorri. – Não vou te emprestar uma calcinha. Tem um banheiro aí em frente.
                Abro a porta do banheiro e me vejo em um corredor sem iluminação do sol, o que era esquisito visto que são bruxos do clã do sol. Abro a porta do banheiro e me vejo em um banheiro mais escuro ainda. Um ruído entra pelo meu ouvido e minha visão fica turva. Tento me concentrar e esquecer isso.
                Tiro minha roupa e entro no Box do banheiro, ligo o chuveiro e fecho meus olhos. A água estava quente. Muito quente. Abro meus olhos e me vejo tomando banho com sangue. Tudo que consigo fazer é gritar. Fecho meus olhos tentando entender o que estava acontecendo.
                Sinto uma mão me puxando para longe do chuveiro e uma toalha me cobre. Só percebo que ainda estou gritando quando volto a abrir meus olhos. Ao meu lado estão Erika e sua mãe.  O banheiro agora estava completamente iluminado e o ruído no meu ouvido acabou. Eu tinha imaginado tudo isso, mas o que isso significava?
                Erika olha para sua mãe, e ela entende. A mulher sai do banheiro e nos deixa a sós.
                - O que aconteceu? – Erika falou, seu tom de voz era preocupado.
                - Nada, eu imaginei tudo. – Sinto-me completamente tola.
                - Aurora somos bruxas - Ela fala olhando diretamente em meus olhos. – nada nesse mundo é fruto de mera imaginação, me conta exatamente o que aconteceu, meu pai pode ajudar.
                Ela tem razão, não tinha o porquê de eu esconder essa história dela. Conto tudo para ela, sobre a casa ficar escura, sobre minha visão ficar embaçada, sobre o ruído agudo no meu ouvido e principalmente o banho no sangue quente.
                Enquanto eu falo, percebo que o banheiro que eu entrei não era o banheiro que eu estava agora, esse banheiro era claro e ligeiramente pequeno. O banheiro que eu entrei era escuro e enorme.
                - Termina de tomar seu banho. – Ela diz com firmeza. – Vou falar com meu pai, ele sabe fazer feitiço de proteção mental.
                Eu concordo e ela levanta e vai embora, termino meu banho e saio do banheiro pronta para ir à escola.
                A mãe e os irmãos da Erika já estão a comendo café da manhã. Olho para trás e vejo Erika e seu pai. Ele levanta a mão e coloca na minha testa. Meus olhos são obrigados a serem fechados, uma dor agonizante percorre meu corpo, e então me sinto leve.
                - Foram os Ínvidos. – Não fazia ideia do que isso significava, o pai de Erika continuou. – Eles têm colocado coisas na sua cabeça há anos. Isso vai ser difícil de ouvir, mas talvez os dois últimos anos, com exceção do dia de ontem, podem ter sido apenas imaginação sua.
                Fico paralisada, não sei o que fazer, nem o que dizer. O que será que aquilo significava?
                - O que são ínvidos? – É talvez a última pergunta que me veio à mente, mas é a única que não iria me fazer chorar.
                - Os ínvidos são um tipo de ser sobrenatural, eles não são um clã, eles não são bruxos. – Ele tenta explicar, mas fico mais confusa ainda. – Eu não sei muito sobre eles, mas o básico eu sei. Eles entram na cabeça de alguém, geralmente com sentimento de inveja, por isso o nome, eles criam outras realidades. A mentira foi quebrada da sua mente no momento que você entrou na cidade e conheceu Derek. Talvez a presença de um bruxo tão perto de você tenha interferido nos poderes deles. O que vimos agora foi à tentativa de se infiltrar novamente no seu cérebro. Felizmente eu interferi a tempo, eles não vão mais entrar na sua cabeça...
                A partir de certo momento eu parei de prestar atenção, os últimos dois anos da minha vida foram pura imaginação. Fruto de seres que eu nem sei como se parecem ou o porquê entraram na minha mente.
                - Depois da aula, se quiser é claro, posso ajudá-la a lembrar de tudo. – Ele falou com calma, e me senti culpada por não prestar atenção em tudo que ele falou, sorrio em concordância.
                O Som de uma buzina interrompe meus pensamentos. Erika abre a porta e posso ver que é Derek, ele veio nos buscar de carro. Mas agora eu não tinha muita certeza se eu estava preparada para ir à escola, eu não tenho certeza se quando eu sair da casa de Erika eu estarei segura.
                Erika me puxa e sou obrigada a entrar no carro, Derek nos olha desconfiados.
                - O que aconteceu?
                - Longa história, - Erika diz, após perceber que eu não estava pronta para falar nada. – Dirige que eu conto tudo.

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