sábado, 7 de junho de 2014

Solstício - Capítulo 4

Capítulo 4 – Olhos de esmeralda

Aurora


- Você sabe mesmo estragar uma boa piada. - Não falo nada.
É esquisito como tudo o que eles falaram para mim fazia sentido, eu estava aceitando tudo bem demais. Minha reação não foi completamente desajustada quando vi que meu horário e meu armário haviam sido mudados.
Possivelmente eu esteja sonhando, nos meus sonhos eu aceito qualquer tipo de coisa sem a menor justificativa.
A aula da S.ª Patson estava tão entediante quanto qualquer aula de aritmética consegue ser. Alguns alunos estavam literalmente dormindo por cima das carteiras, mas a professora não parecia ligar.
Olho para o lado e Erika está me encarando, eu a encaro de volta, então ela pega um lápis e o suspende no ar, fazendo-o rodar sem cair. Seus olhos castanhos escuros estão fixos nos meus e ela não parece estar tão preocupada com a bruxaria quanto ela estava antes de entrarmos na sala. 
Seus cabelos cacheados caiam por cima do seu ombro e agora pareciam mais volumosos. Ela para de me encarar e checa seu hálito. Então muda seus olhos de direção, agora ela estava olhando para um garoto. 
Eu conhecia esse garoto, era o garoto do meu sonho. Idêntico até na tonalidade de seus olhos verdes esmeralda. Seus cabelos negros caindo por um dos seus olhos e uma tatuagem no antebraço, uma pequena folha que me lembrava os dias de outono no Central park.
Mas como eu o conhecia? Não era possível, uma vez eu li em um site que é impossível sonhar com alguém sem nunca tê-lo visto antes. Mas hoje foi o dia em que eu descobri que o que eu achava impossível é inteiramente real.
Só percebo que estou prendendo minha respiração quando meu corpo clama por oxigênio. Minha cabeça começa a latejar, e eu me lembro de cada detalhe do meu sonho. 
Meu namorado terminando comigo, era um dia de sol e ela se esquiva quando eu vou beijá-lo, então me lembro de suas palavras “não estou mais apaixonado por você, Collins”. Era assim que ele me chamava quando ficava chateado com alguma coisa que eu fiz. Tudo que eu lembro é que é horrível ser chamado pelo meu sobrenome. Então eu estou sozinha e uma lágrima escorre na minha bochecha.
Uma mão se aproxima e seca minha única lágrima, era ele o garoto dos olhos de esmeralda. Ele me pergunta por que eu estou chorando e por algum motivo eu confio inteiramente nele. Ele me abraça e sua voz sai abafada, como se ele sentisse toda a perda que eu estava sentindo, ele se afasta e diz “tudo vai ficar bem” então eu pergunto “como você tem tanta certeza?” então ele me abraça mais forte e diz “Wave City é o seu lugar”.
Uma lágrima escorre do meu rosto, eu me lembro do Cameron e meu mundo volta a ruir. Eu não quero que todos vejam a garota nova chorando no seu primeiro dia, preciso me mostra forte e confiante. Tento ficar o máximo possível dentro da sala de aula, mas meus olhos começam a arder, eu não conseguia aguentar tudo isso.
Eu me levanto e ando até a porta, eu saiu da sala sem permissão e olho por cima do ombro para ter certeza que ninguém estava me seguindo. Então fecho a porta e as lacrimas saem instantaneamente, o calor das lágrimas logo preenche meu rosto e me sinto obrigada a ir ao banheiro para ninguém ver isso.
Antes que eu consiga chegar uma mão me segura no ombro, eu não me viro.
- Você está bem? – Era a voz de um garoto, ele tinha sotaque inglês. – A professora está preocupada.
Viro-me e o dono da voz era o garoto dos olhos de esmeralda. Sinto-me completamente estúpida de estar chorando na frente dele e toda minha vontade de chorar desaparece, mas meu rosto vermelho, temo que ainda esteja aparente.
O garoto abre um sorriso e posso sentir seu hálito daqui, parece uma mistura de menta com algo doce. Ele senta na porta do banheiro feminino e eu o acompanho.
- Então, qual o motivo do choro? – Seus olhos estão inteiramente fixos em mim.
- Namorado, quer dizer Ex-namorado. – Quando falo me surpreendo que a vontade de chorar não tenha voltado.
- Eu entendo. – Ele para e me olha com uma expressão séria. – Posso te contar uma coisa? Na verdade eu nunca contei para nenhuma garota, mas seu problema parece pior que o meu e você confiou em mim.
- Pode claro.
- Nem acredito que vou dizer isso. – Ele faz outra pausa. – Sabe quando eu disse que entendia sobre namorados? – Outra pausa, mas dessa fez acompanhada de um riso. – Eu meio que já tive um.
Ai meu deus, como eu não pude ter percebido? Eu não sei explicar, mas depois que ele me contou caiu minha ficha, estava tão na cara, mas eu não percebi.
- Ai meu deus. – Foi tudo que eu consegui falar.
- É eu sei, por favor, não conta pra ninguém, sabe como é, cidade pequena. – Ele fala dessa fez com os olhos fixos no chão. – Ninguém aqui tem cabeça suficiente para esse tipo de assunto.
-Pode deixar, seu segredo estará seguro comigo. – Eu abro um sorriso para ele, e ele fica feliz com tais palavras.
- A propósito, meu nome é Nicolas, mas todos me chamam de Nick. – Outra pausa. - _ qual o seu nome?
- Meu nome é Aurora, e não tenho apelidos. 
Passamos mais algum tempo sentados na porta do banheiro feminino, conversamos sobre Nova Iorque, sobre alguns livros, sobre o segredo dele.
Algum tempo se passou e escuto passos vindos do outro corredor.
- Pode ser o diretor, - Nick sussurra. – Vamos entre no banheiro.
Entramos no banheiro sem fazer muito barulhos. Os passos foram direto. Eu olho para o espelho e minha aparência volta ao normal, uma pele branca invés de uma vermelha. Eu olho para Nick e sorrio. Os passos voltam e abrem a porta do banheiro feminino.
Não era o diretor, era Erika. Ela tinha um sorriso plantado no rosto, mas quando olhou para Nick sua expressão mudou inteiramente.
- A professora está chamando os dois. – Ela fala e sai do banheiro.
- Ei, tudo vai ficar bem, - Nick fala pondo as mãos no meu rosto. – Wave City foi feita para você, é a melhor coisa para você.
Essas palavras me lembraram de novo do sonho, dessa vez eu não ia chorar, dessa vez eu estava completamente paralisada, sem reação. O meu sonho tinha se concretizado por completo, talvez fosse essa coisa de bruxaria. Talvez meus sonhos digam-me o futuro. 
Talvez eu nunca houvesse percebido o quanto meus sonhos se tornam realidade até eu abrir meus olhos para um mundo que eu não conhecia, e ainda não conheço por completo.
Minha paralisia foi cortada quando Erika volta ao banheiro e fecha a porta.
- O que foi isso com o Nick? – Ela parecia muito zangada. – Por acaso aconteceu alguma coisa? – Ela tentava se controlar, mas ela não conseguia.
- Não, nós dois só conversamos um pouco. – Eu falo a verdade, ou pelo menos metade ela. – Ele é um cara legal.
- É eu sei, mas ele vai ser meu. – Erika parecia um pouco mais calma quando eu falei que só havíamos conversado. – E, por favor, tente não colocar suas mãos de piranha nele.
- Bom tudo bem, - Ela foi bem rude comigo, então resolvo devolver numa moeda ainda melhor. – Vai fundo, tenho quase certeza que ele gosta de você. Ele não parava de falar em você, e em como gostaria que fossemos amigas.
- Sério?! – Ela mal podia acreditar, ela parecia estar mais alta, mas ela estava na realidade flutuando. Uma parte boa de ser bruxa, pelo menos agora eu sei que não vou precisar de vassoura. 
- Erika, desce.
Ela percebe que está a quase meio metro do chão então cai. Voltamos o mais rápido que podemos para a sala e na porta em frente Nick nos esperava. Ele deixou Erika passar primeiro, o que a deixou ainda mias feliz, e eu rezei para que ela não flutuasse ali, na frente de todos. Então antes que eu entre, Nick olha para mim e me pergunta num sussurro “contou algo para ela?” eu respondo que não com minha cabeça e ele sente um alívio imediato.
- Senhor Reynard, senhoritas Grey e Collins. – A professora nos olha com cara severa. – Castigo, às três horas. Além de sair sem autorização, ainda demoraram muito. Agora se não for pedir muito, por favor, sentem-se.
Nós três nos sentamos, embora eu estivesse encrencada, agora eu estava feliz, conheci uma pessoa legal, menti para uma nem tanto legal e por fim, experimentei um dos meus poderes que eu nem precisei saber como. Eu tinha previsto o que tinha acontecido. E por mim, mesmo que essa premonição fosse muito ruim, ainda assim eu tinha a certeza que tinha poderes.
O resto da manhã passou muito rápido e agora eu via um sorriso no rosto de Erika e eu adorava essa sensação, embora ela estivesse sorrindo por uma mentira, ela tinha esquecido-se de me deixar para baixo.
Derek, que não queria ficar sozinho depois da aula causou uma explosão na aula de química e tentou fazer o máximo de bagunça possível, então levou detenção também. 
Finalmente era meio-dia e agora eu saberia um pouco mais sobre magia.Todas as minhas preocupações a respeito da mudança, do Cameron e do Nick estavam esquecidas. Pelo menos eu iria saber no que estou metida e por que. 
Sentamos em uma mesa um pouco mais afastada de todos e Derek abriu seu livro. 
-Pessoal, eu estou conseguindo ler. – Ela falou em um tom baixo, mas mesmo assim excitado. – Hoje de manhã nada nesse livro fazia sentido.
- Eu não consigo ler nada. – Falei o que era a verdade, tudo que eu conseguia ver eram letras de um alfabeto que eu não conseguia.
Derek me olha com uma expressão esquisita, mas tive quase certeza que ele estava se perguntando se eu estava ficando louco. Erika apenas ri.
- Somente quem estiver usando o colar do seu clã respectivo ao livro consegue ler o que está escrito. – Ela ri um pouco mais alto em tom de superioridade. – Qual é? É meio óbvio não? Eu diria até um tanto clichê.

Nenhum comentário:

Postar um comentário