quinta-feira, 12 de junho de 2014

Solstício - Capítulo 7



Capítulo 7 – A carta



Aurora



                Eu estava com muito medo, não sabia se tinha medo da Senhorita Patson ou se tinha medo daquilo que ela tinha medo. Sua expressão era de total pânico, sua pele que aparentava ser lisa, agora estava totalmente deformada por rugas.
                Era como se ela tivesse envelhecido pelo menos dez anos, em alguns minutos. Olho para meus amigos e noto que estão tão apavorados quanto eu, nada que nós fizéssemos parecia o certo.
                -Eu não vou falar de novo, liberem a entrada. – Sua voz ganhou um tom de desespero. – Aurora, eu sei quem levou sua mãe, eu posso ajudar a salvá-la, mas eu preciso que me deixem entrar.
                Sou invadida por um sentimento totalmente desconhecido por mim, meu corpo inteiro responde as súplicas dela com muita voracidade, eu perco meus sentidos e tudo que consigo fazer é pedir para Erika que desfaça o feitiço.
                -Nem pensar, ela não me parecia muito amedrontada hoje. – Erika olhava pra a mulher com cara de pânico. – O que poderia acontecer em alguns minutos que mudou tanto ela?
                Meu corpo queimava como se uma corrente elétrica estivesse passando por mim nesse momento.
                -Erika, por favor, ela sabe do paradeiro da minha mãe. – Por um momento esqueço-me da professora e meu foco vai inteiramente para Erika. – Se seus pais fossem levados, você não ia querer saber do paradeiro deles, mesmo que fosse por uma pessoa da qual não confia?
                Houve um silêncio, eu sabia qual era a resposta, mas aquele momento não estava se tratando dos pais dela, e sim da minha mãe, ela nem me conhecia direito, muito menos minha mãe, eu sabia que se estivesse no mesmo lugar que ela eu iria com certeza hesitar. Mas não havia tempo para ficar parada.
                Eu precisava de um plano, e um plano que seja rápido. Meu corpo ainda estava queimando por dentro, e então eu percebo, eu estou pronta para fazer meu primeiro feitiço, e tudo indicava que meu primeiro feitiço seria um contra-feitiço para a barreira mágica de Erika.
                Concentro-me o máximo que posso tudo o que eu faço a seguir é dizer:
                - Obrigada por ser tão útil.
                Minhas mãos estão firmes no meu peito, então rapidamente eu as solto e uma luz verde emana do meu coração clareando toda a sala de estar. A sensação de queimação dentro do meu corpo se esvai. A luz verde assim que alcança as extremidades da casa se chocam com uma luz vermelha, o escudo de proteção da Erika. Assim que as duas luzes se encostam, a luz vermelha se quebra como vidro.
                A professora entra e eu não penso duas vezes e faço com que minha luz verde se transforme em um escudo de proteção novo.
                O sentimento que percorre dentro de mim é de total satisfação, eu não sei como eu sabia o que fazer em relação ao escudo, mas meu corpo tinha certeza do que fazia, parecia que eu sempre fiz esse tipo de coisa, e que eu estava perfeitamente acostumada.
                Eu olho para todos, e todos me fitam cm uma cara assustada. Derek e Erika não fazem idéia do que fazer, mas a nossa professora parecia que já tinha o que fazer.
                - Querem chá? – Ela falou como se nada estivesse acontece acontecendo. – É sério. A história que eu vou contar é meio longa, por isso acho melhor conversarmos.
                Depois disso ela saiu em direção a cozinha e abriu o armário, ela sabia exatamente onde pegar as canecas e onde tinham panelas. Ela pôs água para esquentar e convidou todos nós a sentarmos nos bancos do balcão antigo.
                Eu, Derek e Erika sentamos em um lado do balcão e a professora do outro lado, nenhum de nós confiava na mulher, mas era minha melhor chance de encontrar minha mãe naquele momento.
                - Então, acho que agora está óbvio que eu não sou professora. – Ela dá uma parada como se esperasse que déssemos risadas ou comentássemos algo, mas nada disso foi feito. – Bem... A verdade é que eu sou como vocês.
                - Sério? – Erika falou em um tom de sarcasmo. – Isso nunca passou pela minha cabeça, mesmo quando você estava fazendo aquela maçã flutuar.
                - A maçã não estava flutuando garota, - A mulher fala achando que era coisa mais óbvia do mundo. – Eu dei asas para ela, asas de besouro.
                Ninguém sabia como responder à declaração da professora.
                -Aliás, me chamem de Becca. – Ela fala como se estivesse lendo meus pensamentos. – Eu sou uma bruxa do clã da natureza e meu irmão também, acho que o conhecem, afinal ficaram na detenção com ele.
                Aquele garoto, o garoto que eu não conhecia, era irmão de Becca. Um pensamento me veio à mente, talvez existam mais bruxos do que eu imaginei.
                - Meu irmão mora aqui há um tempo, e eu estava procurando outros bruxos em outra cidade, então ele me disse que sentiu uma grande presença de poder chegando a Wave City ontem pela tarde. – Ela falava olhando para mim, como se contasse a história apenas para mim. – Temos motivos para pensar que seja sua mãe Aurora. 
                Então pela primeira vez um pensamento me vem à mente, se eu era uma bruxa, minha mãe também era. Mas eu não conseguia pensar nela como tal.
                Eu não sabia se confiava em Becca, mas ela era minha melhor chance de achar minha mãe nesse momento.
                - Do que você estava correndo? – Pela primeira vez Derek falou desde que Becca entrou. – Você parecia apavorada de quem você tem medo?
                - Eu não tenho medo de ninguém. – Ela fala, mas eu não acredito. – Quer dizer, eu não tenho medo de ninguém que esteja vivo... Eu, em minha condição de bruxa da natureza, posso controlar qualquer coisa que seja natural. Mas eu temo aquilo que deixou de ser natural. Eu temo o Sobrenatural.
                -Então você estava com medo de um fantasma? – Erika fala, mas dessa vez eu não notei nenhum tom de sarcasmo. – O fantasma de quem?
                - O fantasma do homem que amaldiçoou uma cidade inteira. O fantasma de um homem que para esconder sua própria natureza, dos caçadores, matou dezenas de bruxas. – Becca olhava fixamente para Erika. – O fantasma de Seth Howel.
                - É sério? É o mesmo Seth que meu ancestral conta no livro do sol? – Erika fala. – Então toda a história é verdadeira? Existe mesmo uma maldição. E nós precisamos salvar todos da cidade.
                - Não só da cidade... Pelo menos não mais. – Becca fala como se estivesse esperado todos tirarem suas conclusões para falar. – A maldição original de Seth era matar todos da cidade, mas então nosso ancestral em comum, James Reynard, achou um meio para deter a maldição. Mas não por muito tempo. Ele lançou um contra-feitiço temporário na maldição. O suficiente para manter a maldição por nove gerações.
                “Com isso ele teve mais tempo para preparar seu filho Robert para deixá-lo mais forte que qualquer outro bruxo, esse feitiço deveria ser repetido a cada geração até chegar à nona, mas Robert não aguentou tanto poder e ficou com pena de seus filhos.”
                “Então ele dividiu os poderes dele em cinco, e deu para cada um de seus filhos, Steven ficou com o controle do tempo-espaço, Daniel com o controle da natureza, Sam e Joseph com o poder do sol e da lua respectivamente e por fim Anya, sua filha favorita, ficou com o poder que até hoje é desconhecido pelos outros clãs, mas isso pode mudar hoje.”
                “Aurora, precisamos encontra o livro da sua família, segundo a lenda, seu clã é especialista em contra-feitiços, coisa que pude presenciar minutos atrás, talvez com o livro encontrássemos um meio de desfazer a maldição.”
                Eu podia não confiar na Becca, mas ela era a melhor chance de salvar a cidade e minha mãe. Ela era a pessoa que eu conhecia que parecia ter o maior domínio sobre a magia e a história de tudo isso. Eu precisava dela.
                Não pensei duas vezes, corri até o sótão, os outros me acompanharam. Comecei a abrir uma caixa, todos fizeram o mesmo sem questionar. A primeira caixa que eu abri tinha um monte de porcarias, bem porcarias agora, que meu namorado tinha me dado.
                A segunda caixa possuía meu passado, minhas fotos com meu pai, minha mãe, meus avôs, minha melhor amiga – ex-melhor amiga agora -, e algumas fotos minhas e do meu ex-namorado. Enfim coisas antigas, de um passado que eu queria esquecer, mas não podia.
                Em baixo de todas essas fotos havia algumas cartas, estou tentada a ler cada uma delas, não que fosse ajudar em alguma coisa, mas a maioria das cartas era da minha mãe, e nesse momento eu queria ouvir seus conselhos, mesmo que antigos.
                A primeira carta que abro é uma na qual minha mãe me mandou enquanto eu estava na casa dos meus avôs, passando as férias há uns dois anos. A carta nunca fez sentido, eu nunca consegui ler por conta da sua caligrafia, na época eu pensei que era brincadeira da minha mãe, mas agora eu sei o que é.
                Minha mãe escreveu uma carta usando o colar da minha família, do meu clã. Uma coisa me veio à mente.
                - Derek, me empresta seu caderno. – Ele fez uma cara esquisita e depois me entregou o caderno, sua letra era similar a letra da carta. – É isso, enquanto alguém usa o colar da família escreve nesse idioma. Olhem.
                - Não é tipo a descoberta do ano. – Erika me olha, e seu sarcasmo finalmente volta.
                - Bem que eu tentei dizer é que minha mãe me mandou uma carta. – Falo e todos esperam minha conclusão. – E a carta possui o estilo de linguagem similar ao do caderno. Minha mãe escreveu essa carta enquanto usava o colar.
                - Temos que encontrar o colar agora. – Derek fala. – Temos que encontrá-lo agora.

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